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A música e a vida: o melhor de nós

Quarta-feira, 01.05.13

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:05

Os meus anos 70 - quando nos pomos a caminho

Domingo, 20.11.11

 

De Cat Stevens a que mais ouvi nos meus anos 70 foi a Morning Has Broken que me fartei de cantar. Mas não é dela que vou falar hoje, é de temas que redescobri no Youtube.

Talvez porque não os tenha voltado a ouvir, surgiram-me agora despidos de memórias intermédias. Porque a nostalgia é muito selectiva: ligamo-nos a imagens, sensações, emoções agradáveis, e resgatamo-las intactas anos mais tarde.


Do mais conhecido Tea for the Tillerman (70) escolhi On The Road to Find Out e Into White.

Do Teaser and the Firecat (71) escolhi If I Laugh e Bitterblue

Do Catch Bull at Four (72) escolhi 18th Avenue (Kansas City Nightmare) e House of Freezing Steel.

Do Buddha and the Chocolate Box (74) escolhi King of Trees e Sun/C79. Esta fase é a minha preferida pela luminosidade e frescura que espalha no ar, uma vontade de nos pormos a caminho, de iniciar um qualquer percurso. Não é apenas a noção de espaço ilimitado, é essa genica que encerra, que se baseia na nossa natureza mais terrena.


Foi uma época de sonhos, sem dúvida, mas também de muita garra interior. O que aconteceu pelo caminho para tudo isto se perder?

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:36

Os meus anos 70 - límpidas ressonâncias

Terça-feira, 15.11.11

 

É nesses dias claros dos meus anos 70 que me reencontro com a limpidez do essencial, a claridade do essencial, a simplicidade do essencial. Essa simplicidade já não a encontramos facilmente. Mas já a vi em certos, raros, olhares. É essa inocência original que eu mais aprecio.

 

A primeira vez que ouvi Joni Mitchell foi em Big Yellow Taxi e All I Want. Adorei esta voz e esta lógica fora do habitual. Mas quem ouvir Joni Mitchell na fase do For The Roses percebe que há um lado muito inteligente e cúmplice na forma como pega nos grandes temas da vida. Isso é o mais refrescante destes anos 70, pelo menos como os absorvi.

 

Aqui vai a sua voz límpida, inteligente e sensível: Woman of Heart and Mind, Cold Blue Steel and Sweet Fire, Electricity, Blonde in The Bleachers. É tão difícil escolher...

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:50

Os meus anos 70 - os trovadores do essencial

Sexta-feira, 28.10.11

 

Hoje trago aqui de novo dois trovadores, Graham Nash e David Crosby, que fizeram parte de um projecto que já aqui trouxe. Reparem nas vozes, nos sons e nas mensagens, como se interligam de forma clara e quase despida de toda a artificialidade. Como trovadores do essencial.

Estas viagens pelo Youtube levaram-me, pois, a descobrir temas que me marcaram dias límpidos… e eu tantas vezes sem saber de quem eram aquelas vozes, nessa altura isso era secundário, fixava-me nos sons, na mensagem, na ressonância que tinham nas minhas células e neurónios…

Só há uns anos descobri a amizade que os une, a mais genuína possível, tipo mosqueteiros, uma amizade que raramente vemos hoje em dia. Graham Nash nunca desistiu do amigo, como o próprio David reconheceu: o meu amigo salvou-me a vida, da dependência das drogas (não sei especificar qual delas). É um documentário inspirador que vale a pena descobrir.


Foi assim que resgatei ao tempo, como se o tempo não tivesse passado por cima de todos nós, este Graham Nash, There´s Only One, e é de arrepiar, sobretudo porque nunca mais o tinha ouvido. A Prison Song acompanhou-me muitos dias, gostava de a trautear. O Simple Man… E já agora Be Yourself, uma mensagem sempre actual.

 

Quanto a David Crosby, aqui vão as que melhor me acompanharam: Song With No Words (Tree Witn No Leaves), Laughing, Traction in The Rain, Music is Love, Tamalpais High (At About 3) e I'd Swear There Was Somebody Here.

 

Se a música dos meus anos 70 vem quase toda do outro lado do Atlântico? É verdade. Também os meus filmes vêm quase todos do lado de lá. Talvez a minha alma se dê melhor naquelas imensas planícies antes habitadas por índios: this land is not for sale… como no Thunderheart.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:19

Os meus anos 70 – os anos felizes

Sábado, 22.10.11

 

Os meus anos 70 não foram todos eles felizes, houve anos muito bons e anos muito maus, pelo menos na forma como os senti. Mas os anos felizes, esses, estão para sempre ligados ao lado da saúde mental. Eu explico: a saúde mental está relacionada como o viver e deixar viver, com o respeito por si próprio e pelos outros, cultura que absorvi como uma esponja na infância e na adolescência.

Claro que esta máxima filosófica não era universal e muito do meu sofrimento posterior teve a ver com esse desajustamento, mas enfim… nesses anos de eterno verão essa máxima sobrepôs-se a todas as outras. Sentia-me feliz e estava rodeada de pessoas que se sentiam felizes. Não porque tivessem tudo o que materialmente se deseja num qualquer catálogo, mas simplesmente porque tinham o essencial: estavam vivas, de boa saúde, havia sempre legumes frescos na horta e fruta da época no quintal, as estações sucediam-se no tempo certo, a família estava unida para o melhor e para o pior, a primavera anunciava os meses de passeatas e mergulhos.

Havia uma sensação de desejo de futuro, e não era por ser adolescente, nos adultos sentia-se o mesmo. Havia uma sensação de novidade no ar, de promessas de novas experiências. Esta sensação misturava-se deliciosamente com uma sensação de conforto, de gratidão por estarmos todos ali, juntos, e não era preciso muito para fazer uma festa, um simples piquenique ou uma pequena viagem já eram uma aventura.


Hoje o que vejo à minha volta nada tem a ver com os meus anos 70. Há qualquer coisa de abafado e de opressivo, como se tivessemos recuado civilizacionalmente. A máxima saudável viver e deixar viver e o respeito por si próprio e pelos outros, perdeu-se no caminho. Se queremos manter a claridade de pensamentos e emoções temos de nos distanciar deste ruído constante e ir buscar essa brisa do eterno verão desses anos felizes.


Summer breeze sintetiza tudo. Há que resgatá-la dos nossos baús esquecidos, limpar o pó dos sótãos e das caves e tirar de lá fotografias de cores quentes e desmaiadas, para nos lembrarmos que já fomos assim, bem-humorados, gratos à vida, e felizes só por estarmos juntos.

Não estou a convidar ninguém para se alienar no passado, estou a propôr precisamente o contrário: resgatar a sua natureza original e autêntica para lidar de forma saudável com o difícil presente.


 

Nota breve: Escolhi a versão do Summer Breeze com o vídeo a lembrar as cores quentes das fotografias dos anos 70.

Já agora, na minha pesquisa sobre as composições dos Seals and Crofts (que desconhecia, só tinha fixado a sua brisa de verão), descobri estas duas, We May Never Pass This Way Again (with lyrics) e este delicioso You’re The Love. Dedico-as a todos os Viajantes que mantêm intacta a claridade dos anos felizes e que a sabem resgatar nos momentos difíceis.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:24

Os meus anos 70 - aqui, neste momento

Quinta-feira, 29.09.11

 

É difícil explicar que este meu fascínio pelos anos 70 não tem nada de nostálgico, que se trata de ir buscar esse verão interminável e trazê-lo até hoje, a estes tempos cinzentos. 

E penso até que o processo é ainda mais complexo: há mesmo momentos actuais que me transportam de imediato para a luminosidade desses anos 70 e nessa altura é mesmo o déjà vu! Como este déjà vu dos Crosby, Stills, Nash & Young!

 

Andamos tanto tempo à procura da convicção perdida, desse entusiasmo vital, dessa alegria essencial, e é uma música que nos traz tudo isso de volta e nos lembra que já sentimos assim, intensamente. 

Este estranho grupo, por exemplo, criou fórmulas mágicas que o Déjà Vu sintetiza para sempre: podia aqui colocar o Carry On ou mesmo o Almost Cut My Hair!

É garantido que ao ouvi-los essa mistura de sentimentos me invade a alma de novo, a sensação de que ontem é hoje e será de novo hoje e já não ontem, porque mesmo que me pareça ter vivido aquele momento daquela forma na verdade só vivi o momento no próprio momento. Os tempos misturam-se, somos os mesmos mas já somos diferentes.



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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:53

Os meus anos 70 - Música

Quarta-feira, 07.09.11

 

Resolvi, porque essa é a minha natureza, manter o sol dos anos 70 na minha vida. Ir buscar sempre à fonte, a essa água transparente que ainda corre nalguma encosta esquecida. Como solta e alegre eu corria nesse tempo dos verões intermináveis. 

Esses foram os meus anos felizes, porque ainda não tinha visto o lado B que habitava fora desse lugar e dos meus sonhos secretos. Todas as manhãs e tardes que passei a ler, essa música ensolarada acompanhou-me, a marcar os dias.

Aqui irei colocar, uma a uma, as músicas dos meus anos 70, desses verões intermináveis, desses sonhos secretos.


Começo pelos America - A Horse With No Name.

 

Ainda é a mesma sensação de total liberdade, sol e nada mais, o eterno verão. Dá para ouvir a mordiscar maçãs, esqueci-me desse pormenor.

 

 

 

Um mês e meio depois: E não é que entretanto descobri outras duas composições dos America que me acompanharam muitos dias de verão? É o que faz espreitar o Youtube, reencontramo-nos com essa vitalidade juvenil. Aqui vão, caros Viajantes: Lonely People e Tin Man.

Não resisto a colocar aqui também este Sister Golden Hair. E já agora este You Can Do Magic.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:42

Viagem no tempo a ouvir "Losing sleep" do Edwyn Collins

Quinta-feira, 30.09.10

 

Ouvir Edwyn Collins, que nunca me lembro de ter ouvido, a não ser nalguma estação de rádio, transportou-me de imediato para esses longínquos anos 70. Fenómeno estranho, porque este Losing sleep é recente, e a sua carreira só se iniciou com a new wave, mas a música, sempre que me inspira, leva-me muitas vezes em viagens no tempo, porque está lá, nesse espaço-tempo, o melhor de mim, essa claridade, essa fonte.

 

Nesses longínquos anos 70, os anos impressionáveis, também adiei o sono a ouvir rádio. E os melhores serões eram os de inverno, lareira acesa, a casa meio adormecida, com a música por companhia. Ou as tardes de verão, livro na mão, e a música por companhia.

 

Porquê Edwyn Collins? Aconteceu este outono. Já foi os The Divine Comedy neste verão. Aguardo o que será no inverno. Talvez o Brian Wilson neste Gershwin e Cole Porter revisitados. Sei que não é muito simpático para quem partilha o meu espaço-tempo, ouvir o mesmo CD repetir-se... Por isso a frase mais ouvida: Não é muito repetitivo?

 

Entretanto, insisto nesse refúgio no espaço-tempo dos longínquos anos 70, sabe-me bem. Alienação? Não. Disse-o lá atrás, é onde está a minha fonte, a minha inspiração, as minhas personagens, os meus heróis, as minhas referências. Como poderia sequer encarar estes áridos tempos actuais sem me ir abastecer filosoficamente e animicamente a algum lugar-refúgio? São essas viagens no tempo que me salvam os dias. Com a música por companhia.



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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:48

A cultura da amabilidade

Quarta-feira, 24.02.10

 

Foi na cultura da amabilidade que eu pensei quando ouvi ontem, passados tantos anos, o professor Adriano Vaz Serra. Foi na Antena 1, à hora de almoço, e absolutamente por acaso.

Também isto me lembra a série Life on Mars, pois ao ouvir o professor viajei no tempo e às aulas da faculdade de Medicina de Coimbra. 29 anos já... Fomos a primeira turma do curso de Psicologia de Coimbra (1976/81). É certo que já o vi e ouvi em Congressos  e tenho lido artigos seus, mas não é a mesma coisa.

 

A voz, a entoação, a amabilidade. Como se estivesse a dar mais uma aula. Nas aulas também era assim, pelo menos na nossa turma: às vezes questionava-nos e às vezes ironizava discretamente. Trouxe-nos vídeos de casos que acompanhou e levou-nos ao cinema.  A mim sempre me pareceu um pouco british, no estilo e na forma de expor e comunicar, mas sem a afectação inglesa nem o snobismo. No final do curso, esteve presente no almoço com alguns dos outros professores, e assinou amavelmente as nossas fitas. Guardo ainda essas fitas em tom laranja (coincidências poéticas) no baú das memórias mais gratas. 

 

Agora ficamos a saber que abandonou as aulas, mas que vai continuar a dedicar-se à sua paixão de sempre: a psiquiatria. Tem sido convidado para diversos congressos, um será em Abril em Barcelos, sobre Stress, e outro depois em Outubro, mas não percebi onde.

 

Revelou algumas memórias de um percurso que se iniciou em 64, o que o levou a escolher essa especialidade, referiu professores que o marcaram, livros que leu, e experiências como a observação dos doentes internados. Mostrou os incríveis avanços em psiquiatria, a nível de técnicas e recursos terapêuticos. Que não tem nada a ver com esses tempos iniciais. Aliás, a descrição desses tratamentos lembrou-me precisamente um dos filmes que fomos ver na altura, A Laranja Mecânica, os famosos electro-choques.

E, felizmente segundo o professor, também mudou a perspectiva de doença mental, que já não tem aquele estigma de loucura.

 

Finalmente falou-nos do stress, a que se tem dedicado há alguns anos já, tendo elaborado uma escala precisa, fiável, que consta de 23 questões e detecta situações de risco.

Alertou ainda para as consequências graves do stress prolongado, a nível físico e psicológico.

Muitos órgãos, a começar pelo coração, começam a descompensar.

A nível psicológico, os principais efeitos revelam-se em ansiedade e ataques de pânico, fobia social, estados depressivos.

 

Nestas viagens no tempo esta foi uma das mais gratas memórias. Registei para sempre as suas aulas e uma delas, particularmente, em que nos provou de forma inequívoca que o que importa não é o que nos acontece, por mais traumático que seja, mas a forma como aprendemos a lidar com as situações. A sua perspectiva é a da corrente comportamental. É nos comportamentos que se pode intervir.

Embora nos tenha dito ontem, na Antena 1, que o trabalho do psiquiatra é como o do detective, tentar perceber o significado de determinado comportamento, a razão, o motivo, o que está por trás. É mais fácil detectar o que o despoleta, mas o significado oculto, até do próprio, é muito mais difícil e leva o seu tempo, mas é isso que o fascina.

 

Sim, é a sua cultura da amabilidade que me ficou. Foi um modelo para muitos jovens estudantes. E agora pode passar essa mensagem a outros níveis, ou noutros locais, mesmo na comunidade mais alargada e não necessariamente confinada à comunidade científica.

A cultura da amabilidade, nunca como agora tão necessária. No meio de agressividades, de grupos entrincheirados, vermos pessoas que cultivam a amabilidade como forma de comunicação, é uma lufada de ar fresco.

 

 

Também aqui: A cultura da amabilidade.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:40

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42








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